sexta-feira, julho 04, 2008

A Arte de José Delmo











Esta é uma terra de artistas universais, seja na literatura, na poesia, nas artes plásticas, na escultura, na música, ou no teatro, nos movimentos de cultura popular ou na vanguarda das artes contemporâneas.
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O Painel de Arte que ora iniciamos com o ator e poeta, José Delmo, pretende homenagear nossos artistas, acompanhando seus passos, valorizando seus trabalhos e relembrando suas trajetórias. Nossa cultura se ilumina de estrelas como Adonias Filho, Jorge Amado, Telmo Padilha, Mário Gusmão, Pedro Matos, Equio Reis, Fábio Lago, Florianael Portela, Nazy Maron, Goca Moreno, Reizinho, Sabará, Saul Barbosa, Paulo Souza, Gabriel Santiago, numa lista imensa de bons artistas, tradutores permanentes de nossa alma.

Hoje, homenageamos o grande José Delmo, que tem mais de 30 anos dedicados ao mundo das artes. Um ator reverenciado como um dos ícones de nosso teatro, e que transformou-se no maior contador de histórias do sul da Bahia.
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Nos anos 80, José Delmo, ao lado do também reverenciado Ramon Vane, idealizaram o Grupo de Arte Macuco, um grupo que sagrou-se como um dos mais importantes movimentos de arte e cultura do sul da Bahia, promovendo a Feira de Arte e Cultura de Buerarema, que influenciou muitos artistas. Nunca mais parou, e jamais se separou dos palcos.
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Com seus trabalhos, enaltece sempre, a nossa história, cultura, literatura e ecologia. Um artista denso, profundo e visceral; um ator versátil e capaz de alternar a representação de um coronel, um capataz e um escravo, sem vacilar. Para muitos, trata-se de um depositário da mais pura cultura grapiuna, uma relíquia, e um dos maiores atores brasileiros. Dotado de uma voz forte e marcante, José Delmo continua em cartaz com o premiado "O Contador de Histórias Grapiunas", eleborado e protagonizado por ele, onde reúne textos de vários autores como Adonias Filho, Hélio Pólvora e Jorge Amado.
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Esse espetáculo é apresentado, diariamente, na Casa dos Artistas de Ilhéus, e é uma aula-encenação de nossa história, uma lição e um prazer, imperdível. O monólogo está em cartaz desde 2004, na Casa dos Artistas, e também em circuitos diversos como escolas, empresas e praças públicas. O talentoso Delmo interpreta um coronel rico, outro decadente e um trabalhador rural, viajando por fatos e episódios que marcaram a região grapiuna: a chegada de Francisco Romero, a Batalha dos Nadadores, o primeiro manifesto trabalhista escrito por escravos ocorrido no Engenho de Santana, as invasões estrangeiras, a história do cacau, etc. Visto por milhares de pessoas, o espetáculo é uma das principais atrações culturais para os moradores e visitantes de Ilhéus.
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Como disse Antonio Nauá Junior em matéria para o Diário do Sul, em 29/06/2007, Delmo, um talento nato, merece todas as honrarias.
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JEQUITIBÁ REI




Poema e Ilustração de José Delmo




A cidade tem todas as almas
e a alma todas as coisas que a cidade tem.
A minha memória se encerra
na copa verde do Jequitibá
eleito pela natureza
no alto da serra
e que, impassível, na sua grandeza de madeira de lei
assistiu ao primeiro navegante chegar
pelo mar azul da Capitania dos Ilhéus.
Nunca sentido o eco
do estampido seco da arma de fogo
do louco tenente Romero
contra os índios desavisados.
E como fora penoso o vôo
da última graúna,
cansada e ferida,
afogada nas águas do Rio Cachoeira,
que levavam para o mar
as penas dos pássaros
e os corpos dos índios,
expirando dos deuses de pedra dura
a palavra ita
e da mata escura
dos bichos pretos, de penas,
felinos, rasteiros e peçonhentos
a palavra una
até brotar do açoitado
Amor Divino
sergipano Felix Severino
a cidade de pedra-preta, Itabuna!

O perigo
próximo ao teu pé
derrubava as árvores da mata
onde o príncipe Maximiliano
austríaco aventureiro
preso aos lamaçais traiçoeiros
viu macucos serem abatidos
por seus famintos tropeiros.
Mais manchas de sangue
sobre as águas de outro rio
a eternizar no lugar
e no seu leito de areia lavada
o nome do pássaro tombado:
Rio e Vila Macuco.

Qual imponência,
emplumada de verde!
Era o verde!

Verde testemunha

da batalha dos nadadores,
dos traficantes catando búzios,
do verde-sumo, do mar quase anil,
repleto de naus e caravelas
transbordantes de pau-brasil.
Do rufar dos tambores
dos negros amotinados
no Engenho de Santana.
Dos quilombos e aldeias destruídas,
das catucadas mortais,
do valente cafuzo
nos holandeses de Nassau,
antes, nos franceses, com ares de tais.
Dos pontos luminosos
saltitando nas entranhas das matas
como mico-leão-da-cara-dourada.
Do pássaro Solfalá
que sumiu aos olhos dos homens
e da Lagoa Encantada fez seu habitat.
Da Vila Ferradasferrada na margem da veia abertapara o coração mortal da floresta.
Dos caxixes dos coronéis,
dos jagunços em tocaia, do tombo dos inocentes,
de tanta gente chegando, matando, morrendo,
nascendo, resistindo.
Os pássaros e os índios sumindo... sumindo...
Sumindo como fora o macaco jupará,
semeando a roxa amêndoa na mata,
aprovando o cacau que os colonos
trouxeram para as terras do sem fim.

Ó Jequitibá!
Fostes invulnerável ao verde espetáculo
antes de ser poluído pela civilização grapiúna
e só quando frágeis eram teus galhos
despencastes serra abaixo’
teu tronco milenar
pondo espantados os olhos das casas
que se erguiam ao teu pé.

Sabias, ó jequitibá!
em tua rica solidão de madeira de lei
que quando as árvores, os pássaros, os índios,
os rios, os bichos,
nhoesembé, ita, una, ,
não tinham nomes brancos,
era mais o azul do céu e o verde da mata.
Era profundo o silêncio da orquestra dos bichos...

3 comentários:

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Alla hu akhbar!!!

Anônimo disse...

nada mais justo essa homenagem a esse grande icone da nossa culrtura. valeu!