sábado, agosto 05, 2017

O Brilho da Biodiversidade nas Fazendas do sul da Bahia

 Os poucos remanescentes de mata íntegra no sul da Bahia são potes de ouro do conhecimento científico, cultural e da história da biodiversidade, além de ser um baú de novidades e inovação. Estudando os animais e plantas do mundo logo reconhecemos as fazendas dessa região, e suas excentricidades. Algumas logo se destacam com valiosas informações e grandes listagens de espécies, e plantas unicamente conhecidas dessas propriedades. 
  A Fazenda Almada (Uruçuca) tem pelo menos 602 registros de espécies, e alguns deles remontam a viagem de Carl Friedrich Philipp von Martius há 200 anos. Em Una, a Fazenda São Rafael elenca, ao menos, 247 espécies de 156 gêneros e 74 famílias registradas em 18 coleções botânicas. Doze destas já foram incluídas na lista vermelha de espécies ameaçadas do Brasil, incluindo dois tipos de Ingá (Ingá aptera e Ingá grazielae). 
   Já na Fazenda Pirataquissé (Ilhéus) repousa segredos da história das Piperaceae, família de plantas que inclui as diversas variedades de pimentas (Piper cearanum, P. cernuum, P. glabicaule. P divaricatum e P. amplum). São mais de 300 registros desse grupo no município, e uma delas leva o nome de Ilhéus, a Pipper ilheusense, que possui propriedades medicinais. A Fazenda Pirataquissé também está intimamente relacionada a pesquisas históricas do Museu Nacional, especialmente relacionadas ao acervo da fauna e flora recolhidos na década de 40, por memoráveis cientistas, e é citada em importantes estudos sobre vírus em macacos, incluindo um vírus (e doença) conhecido como Ilheus Encephalitis. Por essa e outras pesquisas a fazenda é citada internacionalmente na historia do famoso Callithrix kuhlii. 

O estudo do Callithrix Kuhlii e o vírus da febre amarela têm a Fazenda Piarataquisse, em Ilhéus, como referencia histórica.
Pirataquisse (Fazenda), 14°50′S, 39°05′W. Serviço de Estudos e Pesquisa sobre a Febre Amarela (SEPSFA). Attributed to C. jacchus penicillata (C. j. penicillata × C. j. geoffroyi) by Hershkovitz (1977, p.938, locality 299). Also cited by Kinzey (1982; locality 18). Vivo (1991) lists one skull and one skin in the USNM, and 25 skins, 21 skulls in the MNRJ. Cited by Mendes (1997; locality K4) and attributed to C. kuhlii. Attributed to C. j. penicillata by Ávila-Pires (1969). Vaz (2005) lists a number of localities under the general heading of “Pirataquissé, municipality of Ilhéus. District of Banco da Vitória (14°48′S, 39°07′W).

   Esse grande acervo do conhecimento se soma aos demais valores de nossas fazendas, e leva seus nomes como referencias obrigatórias em centenas de publicações científicas por todo o mundo. Apesar da notoriedade, historicamente, tem faltado posicionamento e incentivo dos governos para a proteção desse herbário vivo, considerado pela unanimidade dos botânicos, em declínio, e marcada por plantas e animais endêmicos e ameaçados, a maioria pouco conhecidos, ou completamente desconhecidos.
  Restando apenas 2,8% de matas íntegras remanescentes na região cacaueira buscamos, em 1998, uma aliança entre o IBAMA e a CEPLAC para essa obrigatória missão constitucional. Dez anos depois, em matéria no Jornal Agora com apoio de Ronaldo Santana, fazendeiro que aderiu a causa das reservas de forma pioneira com a criação da RPPN Mãe da Mata, abordei a ideia do governo federal criar um mecanismo de reversão de dívidas em reservas particulares.
  Numa região onde 98% das matas estão nas fazendas de cacau, apenas o modelo público dos Parques não garante a proteção da biodiversidade, e apesar de esse ser um item fundamental que as prefeituras precisam aderir em todos os seus empreendimentos, o sucesso da proteção depende de forma inevitável da agregação de milhares de pedaços de matas perpetuas, porém particulares, maiores ou menores, mas em toda escala, interligadas. É um projeto que depende de ampla participação social, e só alcançará sucesso se todos juntos, criarmos um mosaico de "espaços da mata" com seus nomes, identidades, histórias e peculiaridades, sendo bem cuidados, para assim garantirmos o corredor ecológico por onde a vida aconteça, os animais transitem e a polinização e dispersão sejam bem sucedidas, enfim, a evolução milenar não seja interrompida, ao menos, até onde saibamos e sejamos capazes de evitar.
   Uma vez valorizadas, os benefícios dessa riqueza poderão vir a ser compartilhados por todos, e o caminho é a sensibilidade, que uma vez conquistada, resulte na prática da multiplicação das reservas íntegras, ao lado das fábricas de chocolate, cultivos de cacau e grande variedade de frutos e flores tropicais, dentre tantos outros produtos da floresta. História, ciência, cultura, inovação e tecnologia brilha através da biodiversidade ainda presente nas fazendas de cacau do sul da Bahia. Este é um valor indissociável da identidade e do desenvolvimento dessa região.  

A Piper ilheusense é uma planta da família das pimentas comum por aqui, e que carrega o nome de Ilhéus na origem de sua descoberta. A planta possui propriedades medicinais em estudo.


quarta-feira, julho 26, 2017

Planejamento Urbano em Ilhéus: Posso discordar?

FOTO DE JOSÉ NAZAL



Discordar por discordar, e meter o pau em tudo é uma coisa, mas refletir o modelo de desenvolvimento para Ilhéus é uma necessidade tardia. Carecemos de planejamento estratégico e tropeçamos historicamente. Plano Diretor é coisa séria, da ordem do dia, e só tem serventia se posto em prática. Vejo que os primeiros sinais de urbanização de uma futura "região metropolitana" não são bons. Saudamos as novas moradias, apesar do projeto arquitetônico lamentável, estranho mesmo ao gosto do povo de ter seu pedaço de chão (lote individual) nesse mundo de terra (espaço não é nosso problema). Saudamos também o novo hospital, apesar do projeto arquitetônico frouxo - feio. Mas o que preocupa é o aglomerado que surge. O resultado da falta de um planejamento do espaço é um hospital "de referência" separado de um loteamento apertado e sem área de lazer, por uma cerca, e ao lado de uma central de tratamento de esgoto que exala mal cheiro. Na imagem vemos a demarcação de desapropriação de uma área "para a futura ampliação do hospital". Me permita discordar desse acimentado sem árvores... Acredito Zé, que esse é o momento decisivo de reunir, refletir e definir em lei, qual o projeto de planejamento urbano que pretendemos consagrar no município de Ilhéus.

Parque Municipal da Boa Esperança

SÉRIE ESPECIAL 1
SE TEM FISCAL TEM PARQUE

   O Parque Municipal da Boa Esperança, área com com 473 hectares localizados em área continua à zona urbana e industrial de Ilhéus é uma relíquia que ainda não foi devidamente valorizada. A área é protegida por mais de cem anos, e possui um valor botânico que a maioria desconhece, e subestima. Ainda que hoje seja um elefante branco para a economia, e uma unidade de conservação cheio de problemas, assim que todos reconheçam suas riquezas virá a ser um dos locais mais visitados da cidade de Ilhéus. O que podemos comemorar hoje é a solidificação de uma guarda florestal atuante. A simples presença do fiscal faz com que o parque exista para a população. os fiscais e os amigos do parque são os primeiros elementos da identidade de uma área natural protegida, vivenciada em seu cotidiano. Por isso saudamos aqui a equipe de Guarda Parque, esses verdadeiros heróis anônimos, funcionários públicos que fazem grande esforço para manter viva a missão da fiscalização e da educação ambiental com muito pouco recurso.

Fiscal Moura é um dos guardas mais antigos.
Missão dos fiscais precisa ser valorizada.
Fiscal Nunes no comando das operações regulares que acontecem no parque.
 




  

Ilhéus e os cacos da cidade histórica destruída

O leão de mármore carrara que restou é símbolo da "Princesinha do Sul", a cidade destruída.
A histórica Ilhéus, símbolo do progresso no nascimento do Brasil, viveu três séculos de decadência até encontrar seu caminho de desenvolvimento. Sob o símbolo da imigração e do vigor da lavoura do cacau nós construímos umas das cidades mais belas da América do Sul. Mas destruímos tudo na segunda metade do século XX. A princesinha do Sul agoniza, e é já dada como morta, vivendo apenas de Jorge Amado, d patrimônio da igreja Católica, o Vesúvio e um dos mais belos acervos fotográficos que uma cidade possa ter, e que nos serve de consolo. 

domingo, julho 09, 2017

Ramon Vane: A Voz e Saudades de um Gênio.



São muitas as histórias de Ramon, e uma vida pela frente para resgatá-las. Por enquanto, a saudade da perda de um grande artista, e alguém cheio de irreverencia entre a arte e a realidade, os tribunais e os palcos, o professor e o louco... Uma coisa Ramon me ensinou, e essa coisa fala como um homem tão pequeno, franzino e frágil pode ter tanta força, identidade, voracidade!

No sul da Bahia, depois da seca histórica, agora chove sem parar.

Imagem de Climatempo.com
O clima no sul da Bahia tem vivido picos de seco e molhado. Primeiro fechamos um ano sem chuvas, surpreendendo até os mais experientes. Já vislumbrando faltar de beber na Terra das Águas, a EMBASA correu com obras para usar a água do Parque Municipal da Boa Esperança, uma decisão polêmica e que merece uma reflexão. Mas o assunto aqui é o nosso clima, que depois de nada de água, agora é um "chove chuva, chove sem parar". O espetáculo da chuva serena sob os raios de luz da Terra do Sol está espetacular, há vibração na mata, mas quando vai estiar? Por enquanto, mais uma semana de sol e chuva.

DEPOIS DE MAIS DE 500 REPORTAGENS, ACORDA MEU POVO DEU UM DESCANSO, VOLTANDO AGORA PARA UM BALANÇO GERAL EM UMA SÉRIE DE REPORTAGENS PARA RECORDAR, RESGATAR E REFLETIR OS PRINCIPAIS PROBLEMAS E PRINCIPAIS VALORES DO SUL DA BAHIA. PRESTIGIE!

sexta-feira, dezembro 02, 2016

A Ponte Pirata

DEMOROU DEMAIS! A OBRA JÁ VAI E NINGUÉM SABE PRA ONDE. QUE INJUSTIÇA MEXER EM ILHÉUS SEM PERGUNTAR AOS SEUS MUNÍCIPES COMO RETOCARÃO NOSSA SAGRADA IMAGEM. FINALMENTE SOUBE DE UMA AUDIÊNCIA PÚBLICA CONVOCADA PELO MP ESTADUAL. SERÁ QUE FINALMENTE CONHECEREMOS O DNA DESSA PONTE, SEU PAI, SEUS MÉTODOS E SUA OBRA? É O QUE SE ESPERA ATRASADAMENTE QUANDO SE RECOMENDOU UMA AUDIÊNCIA PARA DIA 12 DE DEZEMBRO DE 2016.  DAREMOS RETORNO.


   Onde foi parar a democracia, as ações conjuntas, o planejamento participativo, o planejamento estratégico, o plano diretor, as audiências e a transparência pública? No projeto de uma nova ponte e uma nova cara para a cidade histórica de Ilhéus esses conceitos são apenas palavras, nada mais que palavras enterradas em um projeto de rara qualidade autoritária e negligente. 
  Para muitos eu deveria estar elogiando, mas quando se trata de um projeto que impacta diretamente a paisagem, a cenografia da cidade, e é concebido e executado sem nenhuma licença ambiental federal, nem sequer se conhece uma licença estadual, mas muito pior, sem o conhecimento da população, sem nosso dedo, opinião, nem sequer o traçado nós sabemos direito. Não sabemos e olhem que eu pergunto muito, e converso com o povo.
   O que? Como? Que estilo? Que impacto? Que alternativa? Estaiada? Ciclovia bacana? Passeio maravilhoso? Que tamanho? Que cor? Eu não posso elogiar e ninguém pode elogiar projetos que venham para Ilhéus sem ouvir os ilheenses, pois os nossos destinos não podem ser comandados. 
  Todos temos ideias, e eu adoro ideias. Imagino uma nova ponte no formato dos bancos antigos da avenida: Em silhueta! Acho também que deve ser muito delicada, talvez bordada em um mosaico de cores suaves. Talvez uma arte em pintura lhe fizesse diferente, e única, como é Ilhéus. 

quarta-feira, outubro 12, 2016

Nova ponte de Ilhéus: Mobilidade em Cheque


  Vocês já reparam no fluxo de carros na cidade, e onde estão os nós? Pois é, eu observo todo dia, e dá para entender o seguinte. Os motoristas que chegam a Ilhéus optam prioritariamente pela avenidas históricas que conduzem à zona norte, a Princesa Isabel, e assediam a Avenida Esperança para chegarem ao pé da ladeira da ponte Ilhéus-Pontal. O mesmo ocorre no retorno da praia.

   Sendo assim, a nova ponte não tem nada haver com esse fluxo de chegada e saída da cidade. Correto? Ora, então a nova ponte pretende dividir o fluxo de ida e retorno com o mesmo centro, o que vai desafogar o retorno pelo ladrão (contorno proibido para chegar à Princesa Isabel), mas o que o máximo que ela poderá fazer será mesmo dividir o fluxo, isto considerando ainda que motoristas que vem da praia vão optar pela nova ponte, ou seja, enfrentar oi centro da cidade para alcançar a BA 405.
  A primeira coisa que se nota é que para que a nova ponte tem efeito no descongestionamento é preciso abri o caminho pela Princesa Isabel, porque a ida pro centro está entupida até o ralo. Então temos um problema grande de acesso a ponte, e uma importante questão: Qual o trajeto para o fluxo de entrada e saída da nova ponte? Não existe milagre para fazer, é é preciso pegar o mapa e traçar a solução. Com certeza alguma coisa vai tem que mudar. Não temos pista adequada de entrada da BA 405,  e não teremos pista de saída para essa rodovia. O que poderemos ter é uma pista de saída pelo projeto Orla, resolvendo-se de alguma forma, o terrível nó do Porto do Malhado na Cidade Nova para se chegar ao São Miguel. Outra opção? Não existe.
  Talvez o projeto prioritário não seja esse. Talvez não tenhamos a coragem de pensar em uma ponte maior e muito mais cara, desde a entrada da cidade até o sul, planejada até a pista desse aeroporto que precisa ser desativado para o bem da cidade, ante o novo, tão prometido. Talvez não fosse popular gastar esse dinheiro com desapropriação e uma avenida aberta desde a Princesa Isabel, que poderia resolver o problema bem melhor, desde que construído um viaduto para acessar a ponte, que está em altura diferente da referida avenida.